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Estória suburbana

Pedro José vem chegando ao longe. Como sempre, a vizinhança sabia que ele estava chegando antes mesmo de chegar, pois ruidoso Pedro José era. Cantarolando obscenidades, pigarreando catarros, cuspindo cantadas às moças, engolindo destilado vagabundo e tragando Marlboro, Pedro José era o retrato de um Quincas Berro D'água. Provavelmente hoje foi dia de pagamento, visto que outros sete bêbados empilham passos tortos ao redor de Pedro - que tinha a imbecil mania de gastar 150 reais logo após pegar o não-tão-volumoso salário com "amigos", vadias baratas e apostas irracionais. Os postes projetavam uma luz de um amarelo doentio entre a penumbra das onze, fazendo com que sombras dançassem embaixo do caminhar alcoólico uma melodia insensata.  Pedro José se despediu do metrô de trilhos curvos que era aquele conjunto de boêmios andando pela calçada. Essa era a rua dele e agora ele marchava em direção ao seu lar. Com o peito amostra e carregando uma medalha de São Judas Tadeu, ele...

O tipo de pessoa certa para você, mas não para você

Minha carne é macia e aconchegante ao toque e poderia te receber em meus braços. Meu amor é como droga que vicia ao simples gosto. Com um trago, toda minha essência poderia ser entregue a você. Meu beijo é embriagante, fazendo com que, ao provar da minha boca, eu te tornasse minha única alcoólatra.   ... Mas é uma pena que você seja  vegetariana,  não use drogas e não beba.

Distância entre olhos.

Alerta: Você só compreenderá esse texto se já amou quem nunca pode ter em seus braços Ev'ry Time We Say Goodbye by Ella Fitzgerald on Grooveshark  Eu lia o braile de teu corpo com meus dedos tentaculosos, abrindo vulcões expelidores de arrepio e hormônios em teus poros macios com o simples toque. Eu estudava a topografia de tuas idas e vindas montanhosas e desenhadas para fazer homens se acidentarem, marcando cada passo com um beijo para que, tal qual contos para crianças sapecas, eu voltasse pelo caminho que fui. Eu saboreei tuas peles, desde as com sabor adocicado de teus lábios até as de maciez salgada de teus grandes lábios. Em noites de tormenta, eu já dormi em teu peito desnudo e aconchegante, morando no espaço de teu coração. Em madrugadas de alegria eu já pousei minha cabeça e fiz morada na tua palma, arrumando um canto entre teus cafunés.   Mas era comum acordar apenas com a lembrança de uma noite ilusória, além de tua pele em meu lençol, teu perfume n...

Cartas certas.

Parte I   Acordo. O ato de abrir os olhos já me é estranho e, ao finalizá-lo, a estranheza continua. O raciocínio ainda é lento e chega junto com a dor no globo ocular e na têmpora. Essa luz suja e difusa dói. As primeiras palavras que me vêem a cabeça são "que merda é essa?". Mexi a mão instintivamente para alcançar e pressionar a têmpora, crendo que o simples movimento pudesse fazer a dor parar por completo, como se algum remédio mágico estivesse nas pontas de meus dedos e que o alívio fosse instantâneo. Ao fazer isso, sinto um frio metálico em meus pulsos. O barulho de correntes só serve para aumentar a surpresa. A cabeça cai para o lado devagar até eu achar o causador do frio em meu pulso. Reluzente e inigualável, uma algema surge adornando o braço esquerdo. Com mais força para poder ir mais rápido, tento girar 180º de uma vez para ver o direito. A mesma cena se repete. "Que merda é essa?" eu penso, levantando os braços e me revelando presa. Scanneio o ...

Santa's stories - Papai Não-Tão Noel

- Encha meu copo, Thiago. Encha e fica aí que hoje eu to voltando pro meu bico favorito. Encha e fica aí que eu vou te contar o porquê ele é meu favorito. E não adianta fingir que tem que atender clientes que eu to vendo pelo reflexo do teu óculos fundo-de-garrafa que não tem ninguém nessa bodega.   Faz tempo que eu não retornava a fazer esse bico. Também pudera, na última vez fui acusado de arrotar na cara de um pirralho. Mentira, calúnia, difamação. Eu já soltei uns puns enquanto essa molecada esperneia no meu colo (claro, expediente logo após o almoço com feijão, suar no calor brasileiro com a bendita roupa vermelha e peluda, crianças saracoteando e revirando o estômago e o rabo assado de ficar sentado só podiam resultar em gases; seria humanamente impossível ficar confortável nessas condições) , mas nunca um arroto. Acabei sendo "suspenso" de ser Papai Noel por uns anos.  Eu gosto de me vestir do "bom velhinho" e estava com saudades, admito. Não por rea...

Teresas de Teresa

Fica by Chico Buarque on Grooveshark "Tereza ou teresa : informal para corda confeccionada com lençóis, cortinas, roupas que é geralmente usada para fuga de sanatórios, hospitais, presídios, etc. " *** Era uma vez... Eram duas vezes... Eram três vezes... Eram tantas vezes que se perdiam entre os numerais. Volátil, sutil, bailarina que desviava das algemas e mágica que escapava das correntes que tentavam lhe por. Nunca se prendeu por muito tempo. Ou melhor: nunca se prendeu. Teresa era fugitiva nata. Fora anatomicamente desenhada para escapar por aí. Com grandes olhos frios e negros,  tal qual câmeras ligadas 24 horas por dia,  captavam  os movimentos ao seu redor. No menor sinal de perigo, fazia com que seus pequenos pés tocassem o chão mais vezes e mais rápido do que você leu a palavra "palavra". Suas mãos, também pequenas, foram projetadas para não sustentarem por muito tempo responsabilidades, sempre as deixando cair. Quando a ajudavam e colhia...

Meios de um mesmo final

Hamburg Song by Keane on Grooveshark   Nas veias corria um sangue com adrenalina, num movimento frenético que demonstrava insegurança. Nenhum dos dois mantinham um contato visual, mas ela sabia que estava sendo observada. Os olhos marrons que devoravam a carne, fixos e quase que pontiagudos, agora estariam em um vermelho flamejante, num desejo vazio de alcançá-la e fazê-la encarar sua face. Ao menos é o que ela imaginava.   A mão pequena e branca contrastava com a mão dele, enorme pele morena que a segurava. De longe o casal sumia por entre o céu nublado, as gotas de chuva e o trânsito.   Em seu sobretudo preto, a garota parecia escapar do olhar dele.  Descendo a rua curva, os corpos pareciam diminuir a cada passo, até o momento em que desapareceram de vez. Ninguém notou que ele chorava por causa da chuva, mas o peito doía uma saudade, um ódio, uma solidão que só ele sentia.  *  *  *   "É demais pedir para ser amado?" era a pe...