Postagens

Meios de um mesmo final

Hamburg Song by Keane on Grooveshark   Nas veias corria um sangue com adrenalina, num movimento frenético que demonstrava insegurança. Nenhum dos dois mantinham um contato visual, mas ela sabia que estava sendo observada. Os olhos marrons que devoravam a carne, fixos e quase que pontiagudos, agora estariam em um vermelho flamejante, num desejo vazio de alcançá-la e fazê-la encarar sua face. Ao menos é o que ela imaginava.   A mão pequena e branca contrastava com a mão dele, enorme pele morena que a segurava. De longe o casal sumia por entre o céu nublado, as gotas de chuva e o trânsito.   Em seu sobretudo preto, a garota parecia escapar do olhar dele.  Descendo a rua curva, os corpos pareciam diminuir a cada passo, até o momento em que desapareceram de vez. Ninguém notou que ele chorava por causa da chuva, mas o peito doía uma saudade, um ódio, uma solidão que só ele sentia.  *  *  *   "É demais pedir para ser amado?" era a pe...

Platonismo online.

Lovesong by The Cure on Grooveshark  Conhecia tudo dele: as fotos da viagem para Barcelona, a tatuagem em mandarim que significava seu nome, o bar que mais frequentado por ele e os amigos, o twitter com postagens de setembro de 2012. Foi por acaso, visitando uma página de amigos dos amigos da amiga ou talvez vendo os comentários nesses sites por aí. Isso. Se não se engana, eram comentários na página de amigos da amiga sobre alguma tirinha boba tirando sarro dos engenheiros mecânicos, profissionais do curso que ele estudava. Gostou do jeito que ele articulou um argumento usando uma frase famosa de um filme que ela gostava. Desde então descobriu um amor com o nickname de Cadu H. Moura. Os links para suas redes sociais estavam favoritados e ela acompanhava a movimentação. Uma semana sem uma fotinho no Instagram era motivo de choro e de busca em hospitais e IML. O que curtia era privado e dificultava um pouco a descobrir seus gostos, mas aqui e acolá postava um "Bom dia", u...

Entre dois amores.

 Uma de cabelos negros e pele branca. Sempre fria, séria, consistente em um único objetivo: seu próprio prazer, saciando sua ânsia demasiada. Moça de muitos, odiada por muitos mais e temida por outros tantos de muitos. As roupas consistiam em vestido com meia-calça ou camisa, calça jeans e bota, sempre acompanhados de sua jaqueta de couro, formando um conjunto nunca de outra cor senão preta. Contrastando com os braços brancos, o desenho da caveira do Dia de Los Muertos coloria a pele áspera. Os olhos lembravam a cavidade ocular do desenho que carregava consigo: fundos e com olheiras, ela destacava-os com maquiagem escura contornando o olho escuro de nascença. Dominava a língua alemã, coisa que só uma nativa poderia fazer igual, transitando por acusativos e genitivos com uma seriedade de uma  blitzkrieg . Acessórios? Apenas uma carteira de cigarro e do canivete no lado de dentro da jaqueta. Sempre acompanhada de copo de bebida, o canivete com lâminas de várias f...

De ponto em ponto.

Começou pegando o Los Angeles - viu a parte mais bela da riqueza. Depois teve que pegar o Novo Mundo - não viu nada de novo diferente do mundo antigo. Pegou o Vila Rex - conheceu um antigo que era novo para ele. Obrigaram a pegar o Agrícola - apenas viu tudo em cinza e nada em verde. Não teve receio em pegar o Canal da Música/Vila Alegre - entristeceu ao só ter funk para ouvir. Com tristeza, pegou o Solitude - se perdeu na depressão. Também pegou o Centenário/Campo Comprido - não reconheceu o campo que conhecia. Devia ter pego o Santa Cândida/Capão Raso - mas a fé era rasteira naquele lugar. Pegou carona no Pinheirinho - esperava parar lá em Araucária. Pegou o Vila São Paulo - orou para todos os santos o tirarem de lá. Se converteu e pegou o Cristo Rei - amém. Queria pegar a Novena - quando chegou, não tinha mais. Se surpreendeu ao pegar o Estudantes - a educação não tinha lugar preferencial. Adorou quando pegou o Formosa - as curvas o cativaram. Pegou todo...

Sangue e batom.

Janie's Got a Gun by Aerosmith on Grooveshark Era tarde demais para as últimas palavras serem chorosas. Se bem que, se dependesse dela, isso seria a única coisa capaz de não acontecer. Acontecia sim uma lágrima manchada de rímel, que fazia rapel na pele branca. A dor era excruciante, mas nada parecia a afligir mais do que se  passava dentro da cabeça da morena. Na barriga, o buraco formado no corpo expelia uma mistura líquida de cor vermelha que continha ira interna e luxúria passional, pecados que ela cometia com sabedoria. Fruto de uma tentativa de estupro, o projétil se escondia dentro dela, aproximadamente entre o estômago e o cólon transverso. Quem atirara nesse momento já estava planejando a próxima vítima para saciar a vontade, aliado de seus amigos. Torcia ela pra que o veículo dos mal feitores capotasse. Podia ligar para a polícia, para a ambulância ou para a família (ou o que restava de uma), mas apenas seu amante a interessava. Não ligou. Esperaria mais um po...

Santa's stories - A puta

Leia sobre o velho Leia sobre o casal The Next Day by David Bowie on Grooveshark  Ela tinha passado no saguão do shopping para dar um adeus para o pai. Depois de trabalhar o dia na prataria ela ia para a segunda parte do seu trabalho enquanto seu pai, que fazia um bico de Papai Noel no shopping, ia voltar para casa. Foi para o banheiro e trocou o uniforme preto por um vestido, mas sabia que logo ia fazer outra troca.   Atrás de um bar chique do centro ficava o lugar. Um strip club chamado Calor Tropical. Hoje era dia dela ser a estrela e dançar no palco e não nos queijos periféricos ou ser companhia no chão. O palco era cobiçado por motivos óbvios; quem dançava no palco principal (também chamado pelas garotas de prato principal) ganhava mais dinheiro; os queijos ao redor (chamados de entrada)  rendia homens chorões e uma quantia boa; já quando se fazia companhia no chão (apelidadas de petiscos), normalmente se ganhava quanto o cara tinha no bolso -uns 50 reais, no...

Santa's stories - O velho

Leia sobre a puta Leia sobre o casal Don't Shoot Me Santa by The Killers on Grooveshark  Então ele saiu do shopping depois de ter trocado de roupa e pegou o ônibus para ir para casa. Viu toda aquela gente com sacolas e mais sacolas nas mãos. Aqueles pirralhos fedidos e piolhentos, mais alguns para somar na conta de quantas crianças vira hoje.  Senhor Cristóvão F. Luarde. Um senhor decrépito, gasto, vetusto, barbudo. O beberrão o ano todo podia ser visto em um boteco na periferia, jogando truco e bilhar com um calção marrom, descamisado e mostrando a enorme pança de fora (e mesmo quando estava vestido, ainda podíamos ver parte da bola de banha envolta em pele caindo para fora) e um boné de um ex-vereador da cidade (que até tinha morrido ano passado).  Vivia da aposentadoria que ganhava , mas durante a mágica época consumista, também conhecido como Natal, ele era a alegria da criançada como o Bom Velhinho morador do Polo Norte. Odiava com todo o seu coração...